Rodrigo
de Souza Leão - Albano, fale um pouco sobre o projeto Inteligência Ltda.
Albano Martins Ribeiro - Foi uma idéia que
surgiu quando resolvi procurar na Internet por escritores independentes e seus textos.
Encontrei alguns, um livro aqui, outro ali, tudo muito pulverizado, e acredito que só
não encontrei mais porque o autor independente têm receio de se proclamar como tal, como
se isso fosse um defeito.
Com essa pesquisa, entre outras coisas, percebi que: 1) é feio ser autor independente
porque isso significa que sua edição foi paga por não ter sido aceita por uma editora,
2) livro independente raramente vai para livraria, 3) os autores que publicam por conta
própria não têm lugar para vender seus livros, e se fazem valer de seus próprios sites
ou blogs. Até aí, nenhuma novidade.
Daí, pensei na Geração Mimeógrafo, que publicava suas obras mesmo com péssimo
aspecto e saía para vender na calçada. Fui mais para trás, e me lembrei de
Miguel Torga, escritor português que imprimiu seus primeiros livros na grafiqueta da
Universidade de Coimbra enquanto cursava Medicina, e os vendia a quem passasse por perto.
Lembrei de tantos outros exemplos, e cheguei à conclusão de que: 1) ser independente
não é nenhuma novidade, 2) independência não tem relação com qualidade literária, e
3) a Internet, talvez, seja a calçada do nosso tempo.
Eu tinha o domínio (inteligencialtda.com.br) registrado e ocioso. Resolvi criar o site,
para ver no que dava. Em um par de meses, mesmo sem tempo para divulgar nada, já há mais
de 20 livros à venda e muitas opiniões favoráveis a respeito, de escritores e da
imprensa.RL -
Como o escritor faz para divulgar seus livros no site?
AMR - O sistema de divulgação das obras é de uma simplicidade
infantil: o escritor me manda um exemplar do livro, eu escaneio a capa, faço-lhe uma
ficha a partir dos dados contidos no livro, junto o e-mail do autor, e ponho tudo no ar.
Pronto, acabou.
O que eu ganho? A princípio, nada. Ao contrário, gasto uns 20 reais por mês, e sei que
isso não vai acabar comigo. Mas espero "criar a biologia", desenvolver um meio
ambiente que seja conhecido, e que passe a ser referência em Literatura Independente
(notou as maiúsculas?). Sei que não vai ser fácil, nem vai acontecer de um dia para o
outro. O site tem me exigido um olhar atento e, principalmente, diário. Agora, por
exemplo, é o momento de continuar divulgando a iniciativa para escritores. Em seguida, o
foco deverá ser o leitor, e será preciso pensar em como divulgar sem gastar dinheiro que
não existe.
RL - Você
desenvolveu também a idéia de um consórcio para publicação de livros. Diga-me como
funciona.
AMR - Fotolito, tinta, papel e mão-de-obra são insumos pagos à
vista pelas gráficas. Assim, não há como as gráficas venderem o livro a prazo,
financiá-lo ao autor. Neste panorama, como o autor conseguiria pagar seu livro a prazo?
Rô Druhens, escritora e amiga, veio com a solução: pelo sistema de consórcio. Mais uma
vez, não foi necessária uma idéia nova, bastou abrir os olhos.
Na prática, o sistema de consórcio tem seus problemas: primeiro, os livros de todos os
autores devem ter as mesmas especificações (papel, cores, número de páginas,
acabamento) para que seja possível ratear custos de maneira eqüitativa e uniforme;
segundo, caso algum participante saia no meio do caminho, os que ficam são prejudicados,
e vêem suas parcelas aumentarem subitamente. Além disso, não consegui estabelecer, como
padrão, um livro mais simples e barato. Os autores interessados ficaram com receio de um
eventual mau aspecto, querem publicar bonito. Eu não me importo com aspecto de livro, mas
a maioria, sim. Com isso, a parcela mensal acabou ficando mais cara e pouco atraente. Mas
continuo divulgando a iniciativa, tentando fechar o primeiro grupo. Antes disso, estou
correndo para lançar um volume nos meus moldes, fora do consórcio, para servir de
exemplo e mostrar que o meu feio pode não ser tão feio assim.
RL - Como você vê o
mercado editorial?
AMR - Não sou especialista no assunto. O que sei é o que sinto e
o que deduzo a partir daí. Acredito que, no Brasil, o mercado editorial já está muito
à frente do que anda pelo resto do mundo. Sim, porque o destino do livro, infelizmente,
é desaparecer. No Brasil, o livro está muito mais próximo do fim do que em qualquer
outro país dito civilizado.
Amargas ironias à parte, vejo um mercado editorial deficiente, no sentido AACD da
palavra, e isso é muito triste. Como haver mercado para um produto que poucos desejam
consumir? Como vender livros num país em que, se fosse explicado com detalhes, a dez
pessoas, como e por que José Mindlin cuida de seu acervo, nove e meia ririam? O livro é
um artigo que "não está por aí", em qualquer lugar que você vá. Quem já
viu propaganda de loja de móveis populares anunciando estantes que não sejam para tv?
Quem já folheou uma revista Caras e viu um livro nas casas dos "famosos"?
(Livros "de arte" sobre mesas de centro não contam!). Duas ou três gerações
sem livros, patrocinadas pelos desgovernos federais, militares ou não, criaram um
ambiente em que o livro é um objeto estranho, que todo mundo viu e conhece, mas não tem
idéia de como usar. Como uma cabra num escritório de contabilidade.
Ah, mas o Brasil está cheio de editoras! Na verdade, há dados que apontam haver mais
editoras que livrarias. Falando em termos de mercado, só pode haver mais fábricas que
lojas se as fábricas estiverem vendendo o produto manufaturado ao produtor da
matéria-prima. É isso que anda acontecendo, e não tem nada de desonesto. Como arriscar
dinheiro num autor estreante, se a divulgação será nenhuma, se a distribuição exige
altíssima rotatividade provocada pelos inúmeros títulos lançados diariamente, se a
imprensa especializada se resume a um ou dois jornais beirando a falência, se as grandes
livrarias preferem vender tvs de plasma? Nesse ambiente em que um best-seller nasce
best-seller, o "resto" nem nasce. O comprador de um livro, seja de autor
estreante ou não, é sempre alguém interessado por ele. E o único interessado pelo
autor estreante é ele mesmo. Sendo assim, ele tem pago suas edições.
E é aí que entra o Inteligência Ltda.: se é para pagar a própria edição, que ela ao
menos custe pouco e dê mais lucro ao escritor. Com o site, o autor banca igualmente tudo,
e recebe o preço de capa sem descontos de editor, distribuidor e livraria. Vende pouco?
Ora, e venderia muito na livraria?
Ainda sobre o mercado, gostaria muito de poder fazer uma pesquisa na boca do caixa das
grandes e pequenas livrarias. Perguntaria aos fregueses que estivessem comprando livros
quantos são para consumo próprio, quantos são para presente. Não me espantaria se
muito mais que a metade fosse para presente. E daí? Daí que eu acho que boa parte do
mercado editorial é movida pela venda de livro que não será completamente consumido.
Sim, porque não leio nem metade dos livros que ganho.
Mas o que precisa mudar de uma vez é a relação editora x público. Livro não pode ser
artigo de luxo, não pode ser associado a coisas que não sejam literatura, livro não
pode ser bola da vez, tem que ser bola de todas as vezes. Livro é do escritor para o
leitor. O resto é mal necessário, e quanto menos mal, melhor. Eu quero ir à Bienal do
Livro ver livros, não a Xuxa cercada de dez mil crianças enfurecidas. Isso não é sinal
dos tempos. Isso é ridículo. Este ano, meu crachá da Bienal parecia com um ingresso do
Hopi-Hari. Conclusão: não fui, tanto pelo crachá quanto pelo que ia lendo nos jornais
enquanto a Bienal corria. Eu só queria ver livros, e não quebrar uma perna.
RL - Quais as maiores
dificuldades que um autor encontra na hora de publicar o seu livro?
AMR - É uma Via Sacra que nem sempre chega ao Gólgota. A
satisfação de ter um original completo começa a se esfarelar logo com a proverbial
demora das respostas dos editores eleitos pelo autor. Se a resposta não vem, acabou-se;
se é positiva, ótimo, boa sorte no resto do processo. Mas muitas vezes, o autor consegue
apenas uma resposta parcialmente positiva: uma oferta de parceria, em que o escritor entra
com o original e o dinheiro, e a editora com o trabalho. A editora, seja por política
própria, seja por necessidade, oferece a parceria como "saída" para o autor.
Se o autor tem cacife e paga para ver, terá seu livro editado e, eventualmente, até bem
distribuído. Mas... e vender, que é bom? Como vender sem divulgação, sem atenção da
imprensa, sem o apoio da editora? Já vi editor reclamando com autor estreante que seu
livro vendia pouco, cinco ou seis exemplares por mês. Ora, faça-me o favor! Como vender
um livro sendo desconhecido e sem ter uma linha na imprensa? Onde está a continuidade do
trabalho do editor, divulgando o que editou? Melhor dizendo, onde está a imprensa?
O Inteligência Ltda. propõe um caminho diferente. Se é para pagar, o autor paga. Mas na
hora de receber, é tudo dele. Lançamentos? Ele os faz e fica com o lucro.
Distribuição? Ele a faz, e fica com o lucro. Em troca, divulga o site, para que um dia
funcione como referência no assunto e seja procurado por quem deseja conhecer o que há
de novo no mercado.
RL - Como vê o
Movimento Literatura Urgente?
AMR - Discordo de ponta a ponta, isto é, não concordo
inteiramente com nenhum dos tópicos do Manifesto apresentando ao Ministro da Cultura e ao
Coordenador do Programa Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas, por achar que, na
situação atual brasileira, o Movimento é a última coisa que deveria ser promovida em
benefício da Literatura. Quando digo isto que fique muito claro , quero
dizer exatamente isto: há muitas coisas para fazer antes. Não é hora de fomentar
grandes produções, e sim de se tentar manter e fazer crescer o pouco público que ainda
se tem. Há tópicos no Manifesto que tratam disto, mas como sub-produto da ação. Para
mim, deveria ser o tópico principal, ou único, exigindo Educação. Cultura é apoiada
na Educação, e não pára em pé sozinha.
Além disso, por princípio, não vejo nenhum sentido em se depender de verbas alheias,
pior se forem públicas. Incentivos em forma de verba (pública ou não) sempre se tornam,
mais dia menos dia, em moeda de barganha. E o artista, formador de opinião que é, deve
ser livre, e não gado político.
Mas mesmo conhecendo o estatuto e não acreditando nele, fui um dos primeiros a me
associar à comunidade mantida no Orkut. Pensava eu que seria importante dar minha
opinião, debater. Participando da comunidade, cheguei a publicar um tópico chamado
"Ou será melhor plantar uvas no deserto?", influenciado por uma reportagem do
Globo Rural (é sério!), em que assisti a produtores vinícolas de Israel, pelo meio
daqueles desertos pedregosos e cheios de escorpiões (cenário semelhante ao nosso mercado
editorial), plantando uvas e fazendo um vinho maravilhoso, de sabor raro e preço alto.
Tinham sido obrigados a aprender com o fracasso qual o melhor jeito de lidar com o
ambiente: deitando as parreiras que, como vassouras caídas no chão seco, mantêm a
umidade mínima necessária (e suficiente) para a formação dos cachos. O que eu quis
dizer com isso é que vejo mais força no micro, no pequeno, naquilo que é independente
do poder.
Mas foi metáfora demais para uma comunidade de escritores. Cláudio Daniel, na primeira
resposta, sugeriu-me que lesse as propostas apresentadas ao Ministério da Cultura.
Disse-lhe e não tinha dito antes por considerar esta informação óbvia demais
, que as havia lido, e que não concordava com a intenção de se buscar verbas
federais para promover o que fosse. "Verba não falta", me respondeu ele,
"falta vontade política". Como, na minha opinião, o que faltam são leitores,
saí da comunidade. Quero, sim, debater os temas que me interessam, e a mim não falta
vontade política, no melhor dos sentidos. Mas continuo torcendo e desejando boa sorte ao
Movimento, sinceramente.
RL - Como avalia o
trabalho do Ministério da Cultura no âmbito da arte literária?
AMR - Desculpe-me, Rodrigo, mas não tenho como responder, não
sei como avaliar o que não vejo.
RL - Qual é o papel
da Internet na divulgação de cultura, e o que pode ser feito para melhorar a relação
de escritores com o público via Internet?
AMR - A Internet é a maior ferramenta de divulgação (de tudo,
não só de Cultura) jamais desenvolvida. Eu disse "maior", não "mais
eficaz". Por ser grande e jovem, ainda não se sabe direito como ela funciona. É na
Internet que descubro autores novos, compro livros, conheço clássicos, falo com meus
leitores. Mas como escritor, tenho percebido que também é importante sair, botar braços
para fora da Internet assim que possível, publicar em papel.
É importante saber fazer uma retroalimentação de um ambiente para outro, o dentro e o
fora da Internet: vender livros de papel para o internauta, e trazer o leitor do seu
artigo na revista para a Internet, mostrar a ele o que mais você escreve, e assim por
diante. Dessa interação pode sair muita coisa boa.
A Internet não é muito mais eficaz que outros meios de comunicação, é apenas mais
prática e barata. O problema é que, sendo prática e barata para todo mundo, qualquer
coisa fica coberta de entulho, é informação demais para ser manejada por um cérebro.
Às vezes eu me sinto como se estivesse numa banca de jornal de cem alqueires. O autor que
quiser ter seu trabalho visto deve, portanto, usar a rede como mais uma ferramenta, e com
muita atenção.
A Internet não faz leitores ou escritores, apenas permite que leitores e escritores
possam desempenhar suas funções a um custo mais baixo.
RL - O que fazer para
modificar a relação escritor X editora no Brasil e melhorar a qualidade do que é
publicado em nosso país?
AMR - Não vejo relação entre a primeira e a segunda partes da
pergunta, por não ver como a qualidade do que é escrito possa ser resultado da boa
relação entre escritor e editora. Se me dá licença, divido a pergunta em duas, e
responderei usando os verbos em tempo futuro, como se tivesse alguma esperança de estar
falando a verdade.
O que fazer para modificar a relação escritor x editora no Brasil? Havendo um mercado
atuante e produtivo, não haverá problemas, ou haverá outros que não conhecemos. Mas
este mercado, como está, precisa de um tal de Consumidor, que anda meio desaparecido.
Disseram a ele que livro dá sono, disseram a ele que todos os livros foram escritos por
gente chata como o Olavo Bilac, e ele se afastou. Disseram a ele que livro fala, pula,
canta, e ele se decepcionou. Como ele agora não está em lugar nenhum, é preciso
fazê-lo de novo, educá-lo, ensiná-lo a ler, não para comprar livros e azeitar a
máquina, mas para ser feliz, descobrir mais este prazer. Começando agora a trabalhar por
isto, ainda levaremos uns 20 anos para chegar lá, desfazer a nojeira burra e conveniente
ao poder que nos tem sido imposta.
Como melhorar a qualidade do que é publicado em nosso país? Aqui, haveria a necessidade
de se definir o que é boa e má qualidade de uma obra de arte. Não me arrisco, deixo
passar. E respondo apenas que acredito que a receita para se ter alta qualidade seja a
mesma para que se tenha bons atletas, a ponto de se sair bem numa Olimpíada: tendo
muitos, e deixando que treinem suas modalidades em paz. O mercado fará o resto, chegará
lá sozinho, quando houver ambiente e condições para esse exercício. Mas, repito, não
tenho esperança de que isso aconteça, nem hoje nem daqui a vinte anos.
RL - Por que os
livros de auto-ajuda fazem tanto sucesso e a poesia não?
AMR - O livro, como qualquer ser vivo, precisou se misturar
geneticamente a outros seres para se multiplicar e perpetuar, o que desembocou em
transgênicos assemelhados, alguns nobres, outros nem tanto: o filme baseado no livro, o
roteiro do filme adaptado para livro, o livro-cd, a poesia no muro, o livro de auto-ajuda,
que talvez tenha sido um dos últimos transgênicos a aparecer. Acredito que vendam mais
por um só e óbvio motivo: interessam mais ao público consumidor. Em outras palavras,
há público consumidor para eles, e não há para a poesia, a prosa, o teatro. Para mim,
é simples assim.
Não tenho autoridade para falar mal de livros de auto-ajuda. Nunca li nenhum, sequer os
folheei. Falo mal, isto sim, dos rankings de livros que insistem em incluí-los como
não-ficção. Livros de auto-ajuda não são livros, não são literatura. Deveriam
constar dos rankings de remédios (se os há).
Pergunto: se incluem livros de auto-ajuda nas listas de mais vendidos, por que não
incluem o Guia de ruas? Um porco verde e fluorescente não é um porco. Não interessa o
sabor que tenha. |