"QUIRINO
E teve o Quirino. Garoto criado ali mesmo.
O pai morreu cedo. Ficou a mãe, com os meninos pequenos. Ninguém virou bandido. Gente
pobre, vida sofrida. Mãe faxineira, diarista. Quando o Izé tinha uns dez anos, ela
também morreu. Uma tia acabou de criar os meninos. O mais velho arrumou um trabalho no
Paraná e nunca mais foi visto.
Ficaram os menores. Três garotos e uma
menina. Ela cresceu bonitinha, logo entrou num escritório, pra aprender o serviço.
Trabalhou um tempo, mudou pra outro. O patrão gostou dela, pagou estudo, ela se formou.
Mudou pra um apartamento, dividia despesa com uma colega. No começo, mandava um dinheiro,
de vez em quando aparecia para ver os meninos.
Casou com um sócio do patrão, se mudou
para o Rio de Janeiro. Ninguém nunca mais ouviu falar nela.
Izé cresceu por ali. Menino prestativo,
educado. Todo mundo gostava do Izé, de nome José Quirino. Ficou Izé por causa de uma
gagueira, quando criança. Era considerado. Em todos os bares, todas as casas. Conversava
com os adultos. Com a molecada, era o mais moleque de todos. Começou a trabalhar com
quinze anos. Mappin, centro da cidade. Foi lá o primeiro emprego. Aprendeu contabilidade,
era um bom assistente. Um dia, se cansou de tudo, largou o emprego. Antes, arrumou um
esquema com o pessoal da expedição. Conseguiu desviar umas tvs, aparelhos de som. Tudo
esquema bem montado. Saía nota como se fosse devolução de assistência técnica.
Ninguém percebia. Vendeu uns aparelhos lá na vila, quando percebeu que o esquema ia
cair. Ninguém percebeu nada. Só foram dar com o golpe no final do ano, na hora do
balanço. Nem o Izé e nem o chefe da expedição trabalhavam mais lá. Ficou por isso
mesmo.
Com a indenização dos cinco anos
trabalhados no magazine, comprou uns equipamentos e montou a borracharia. Ficou conhecido
como Borracha. Ali, onde tinha seu estabelecimento ninguém sabia quem era o Izé. Nem o
Quirino. Era o Borracha. Prosperou. Conheceu a Graça, uma loirinha que morava nas
quebradas do Independência, um bairro meio caído, perto do Valo Velho. Casaram. Ele
abriu uma nova loja de pneus. Ela ficava numa, ele na outra. Comprou um terreno invadido,
lá perto, e montou um galpão grande. Começou a comprar pneu velho para recauchutar.
Dava um bom dinheiro.
Um dia, comprou um lote de pneus de um
policial militar. O cara levou-o num terreno grande que tinha no Embu. Abriu o esquema.
Moleza. Arrematava uns carros num leilão, pra dar aparência legal no negócio. Os
carinhas faziam o serviço sujo. Depenavam os carros, ele comprava baratinho. Sobravam os
pneus. Agora passaria a vender pro Borracha. Negócio bom pros dois lados. Ficou nesse
lance um tempão. Os carinhas, atrapalhados, começaram a procurar o Borracha para vender
uns pneus velhos. Ofereceram uns carros. Ele não quis. Comprou um caminhão, que
transformou em guincho.
Num socorro que fez, trombou com o policial
do depósito. O cara mostrou como ganhava dinheiro. Borracha se interessou. Fazia os
carretos e ficava com os pneus. Levaram o negócio muito tempo. Meio legal, meio
trambique. Normal.
Com a convivência, passou a saber dos
lances antes de todo mundo. Descobriu que os maiores fornecedores do milico eram os
colegas de farda. Descobriu também que muita bandidagem trabalhava cativa dos policiais.
Sabia onde seria o próximo lance, quem iria. Sabia muito. Sabia demais.
Com o passar do tempo, com policial
chegando toda hora no galpão, começou a se espalhar a conversa que o Borracha era
cagüeta da polícia. Os manos já não trocavam muita idéia com ele. E os pneus cada dia
mais caros. Não compensava fazer serviço pequeno. Ganhava mais nos grandes lotes que
chegavam.
Um dia, mandou os policiais darem uma surra
num moleque que roubara uns pneus deixados de fora da loja. O moleque passou lá no dia
seguinte. Os dois braços enfaixados. Um pedaço de madeira segurando os dois braços pra
soldar o gesso. Ficara com os dois braços abertos, pareciam asas. As palmas da mão em
carne viva. Os policiais bateram com cabo de aço na palma das mãos. Só pararam quando o
moleque desmaiou. Ainda mijaram na cara dele. Ladrão tem que aprender, escutou, antes de
apagar.
No dia em que passou todo enfaixado na
frente da loja, Borracha viu o ódio nos olhos dele. Daquele dia em diante, começou a
andar com um colete à prova de balas, presente do policial.
Uma sexta-feira à noite, fechado o galpão, estava indo pra loja onde trabalhava a
mulher. Um Santana preto fechou o caminhão-guincho. O Borracha colocou a cabeça pra fora
para ver quem era o abusado. Viu o moleque no banco do carona. Apontou o dedo em forma de
arma pra ele. Mandou o cara se foder. Arrancou com o caminhão.
Dez da noite, voltou ao galpão, era mais
ou menos a hora que o policial costumava vir, para o pagamento da semana. Bateram na
porta. O Borracha levantou a porta de aço. Antes, ajustou o colete, que subira, deixando
a barriga de fora. Não adiantou. Os caras entraram atirando. Muito tiro. Na cabeça.
Quando o policial chegou, galpão aberto,
luz acesa. O Borracha estendido, todo furado. Nem dava pra saber onde era a boca, onde
estavam os olhos, o nariz. Uma poça de sangue. Muita bala espalhada. Perto da cabeça, o
chão ainda molhado de urina, dois pedaços grandes de gesso com talas, daquelas usadas em
hospitais.
Antes de acionar a polícia, o milico
observou as calças do Borracha. Viradas do avesso, tinham sido colocadas depois dele
morto. Sabia bem o que aquilo queria dizer. Ligou para o distrito e se mandou. Antes, deu
a volta no balcão de blocos, pegou a chave da saleta que o Borracha usava como
escritório. Pegou o livro caixa, um caderno todo manchado de graxa, com anotações, e se
foi. Não ia deixar pista do que eles tinham em comum. Uma merda, pensou. Subiu no carro e
deixou o local. Daqui a pouco, chega a polícia, perguntas, um furdunço."