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Capão, outras histórias
Valter Ferraz
Contos biográficos

Ano 2007
Edição do autor pela CBJE (2ª)/ 104 p.
Formato 14 x 21 cm
encadernação lombada quadrada, orelhas, capa plastificada
ISBN 978-85-7810-021-6

preço: R$ 20,00
(mais frete nacional por Carta Registrada R$ 4,60)
Total: R$ 24,60

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Esculacho & Simpatia

trecho

"QUIRINO

E teve o Quirino. Garoto criado ali mesmo. O pai morreu cedo. Ficou a mãe, com os meninos pequenos. Ninguém virou bandido. Gente pobre, vida sofrida. Mãe faxineira, diarista. Quando o Izé tinha uns dez anos, ela também morreu. Uma tia acabou de criar os meninos. O mais velho arrumou um trabalho no Paraná e nunca mais foi visto.

Ficaram os menores. Três garotos e uma menina. Ela cresceu bonitinha, logo entrou num escritório, pra aprender o serviço. Trabalhou um tempo, mudou pra outro. O patrão gostou dela, pagou estudo, ela se formou. Mudou pra um apartamento, dividia despesa com uma colega. No começo, mandava um dinheiro, de vez em quando aparecia para ver os meninos.

Casou com um sócio do patrão, se mudou para o Rio de Janeiro. Ninguém nunca mais ouviu falar nela.

Izé cresceu por ali. Menino prestativo, educado. Todo mundo gostava do Izé, de nome José Quirino. Ficou Izé por causa de uma gagueira, quando criança. Era considerado. Em todos os bares, todas as casas. Conversava com os adultos. Com a molecada, era o mais moleque de todos. Começou a trabalhar com quinze anos. Mappin, centro da cidade. Foi lá o primeiro emprego. Aprendeu contabilidade, era um bom assistente. Um dia, se cansou de tudo, largou o emprego. Antes, arrumou um esquema com o pessoal da expedição. Conseguiu desviar umas tvs, aparelhos de som. Tudo esquema bem montado. Saía nota como se fosse devolução de assistência técnica. Ninguém percebia. Vendeu uns aparelhos lá na vila, quando percebeu que o esquema ia cair. Ninguém percebeu nada. Só foram dar com o golpe no final do ano, na hora do balanço. Nem o Izé e nem o chefe da expedição trabalhavam mais lá. Ficou por isso mesmo.

Com a indenização dos cinco anos trabalhados no magazine, comprou uns equipamentos e montou a borracharia. Ficou conhecido como Borracha. Ali, onde tinha seu estabelecimento ninguém sabia quem era o Izé. Nem o Quirino. Era o Borracha. Prosperou. Conheceu a Graça, uma loirinha que morava nas quebradas do Independência, um bairro meio caído, perto do Valo Velho. Casaram. Ele abriu uma nova loja de pneus. Ela ficava numa, ele na outra. Comprou um terreno invadido, lá perto, e montou um galpão grande. Começou a comprar pneu velho para recauchutar. Dava um bom dinheiro.

Um dia, comprou um lote de pneus de um policial militar. O cara levou-o num terreno grande que tinha no Embu. Abriu o esquema. Moleza. Arrematava uns carros num leilão, pra dar aparência legal no negócio. Os carinhas faziam o serviço sujo. Depenavam os carros, ele comprava baratinho. Sobravam os pneus. Agora passaria a vender pro Borracha. Negócio bom pros dois lados. Ficou nesse lance um tempão. Os carinhas, atrapalhados, começaram a procurar o Borracha para vender uns pneus velhos. Ofereceram uns carros. Ele não quis. Comprou um caminhão, que transformou em guincho.

Num socorro que fez, trombou com o policial do depósito. O cara mostrou como ganhava dinheiro. Borracha se interessou. Fazia os carretos e ficava com os pneus. Levaram o negócio muito tempo. Meio legal, meio trambique. Normal.

Com a convivência, passou a saber dos lances antes de todo mundo. Descobriu que os maiores fornecedores do milico eram os colegas de farda. Descobriu também que muita bandidagem trabalhava cativa dos policiais. Sabia onde seria o próximo lance, quem iria. Sabia muito. Sabia demais.

Com o passar do tempo, com policial chegando toda hora no galpão, começou a se espalhar a conversa que o Borracha era cagüeta da polícia. Os manos já não trocavam muita idéia com ele. E os pneus cada dia mais caros. Não compensava fazer serviço pequeno. Ganhava mais nos grandes lotes que chegavam.

Um dia, mandou os policiais darem uma surra num moleque que roubara uns pneus deixados de fora da loja. O moleque passou lá no dia seguinte. Os dois braços enfaixados. Um pedaço de madeira segurando os dois braços pra soldar o gesso. Ficara com os dois braços abertos, pareciam asas. As palmas da mão em carne viva. Os policiais bateram com cabo de aço na palma das mãos. Só pararam quando o moleque desmaiou. Ainda mijaram na cara dele. Ladrão tem que aprender, escutou, antes de apagar.

No dia em que passou todo enfaixado na frente da loja, Borracha viu o ódio nos olhos dele. Daquele dia em diante, começou a andar com um colete à prova de balas, presente do policial.

Uma sexta-feira à noite, fechado o galpão, estava indo pra loja onde trabalhava a mulher. Um Santana preto fechou o caminhão-guincho. O Borracha colocou a cabeça pra fora para ver quem era o abusado. Viu o moleque no banco do carona. Apontou o dedo em forma de arma pra ele. Mandou o cara se foder. Arrancou com o caminhão.

Dez da noite, voltou ao galpão, era mais ou menos a hora que o policial costumava vir, para o pagamento da semana. Bateram na porta. O Borracha levantou a porta de aço. Antes, ajustou o colete, que subira, deixando a barriga de fora. Não adiantou. Os caras entraram atirando. Muito tiro. Na cabeça.

Quando o policial chegou, galpão aberto, luz acesa. O Borracha estendido, todo furado. Nem dava pra saber onde era a boca, onde estavam os olhos, o nariz. Uma poça de sangue. Muita bala espalhada. Perto da cabeça, o chão ainda molhado de urina, dois pedaços grandes de gesso com talas, daquelas usadas em hospitais.

Antes de acionar a polícia, o milico observou as calças do Borracha. Viradas do avesso, tinham sido colocadas depois dele morto. Sabia bem o que aquilo queria dizer. Ligou para o distrito e se mandou. Antes, deu a volta no balcão de blocos, pegou a chave da saleta que o Borracha usava como escritório. Pegou o livro caixa, um caderno todo manchado de graxa, com anotações, e se foi. Não ia deixar pista do que eles tinham em comum. Uma merda, pensou. Subiu no carro e deixou o local. Daqui a pouco, chega a polícia, perguntas, um furdunço."