"Durante muitos anos, ou
melhor, desde que pensei pela primeira vez em escrever um livro, imaginei este momento
mágico: o da primeira frase. E eis que aqui estou, publicando um livro que não é o meu
primeiro, simplesmente porque não é ficção, escrevendo uma primeira frase que nada tem
de especial e que é tão-somente uma meta-frase a respeito da primeira frase de um livro.
Nada parecido com o que eu tinha imaginado.
Tampouco este é o livro que eu imaginava ter escrito quando, aos sete anos, andava pela
escola de lá para cá com uma apostila de história na mão, mentindo aos coleguinhas que
iria ganhar de aniversário uma edição daquele livro (que tinha uma ruína grega na
capa) reescrito por mim. Eu, que aos sete anos não tinha a menor idéia do que era
edição, já mandava avisar que aquele específico estava mal escrito e que eu, criança,
iria reescrevê-lo.
Escrevi este livro, no entanto. E você, leitor, deve estar curioso em saber por quê.
Não? Ora, então finja interesse porque vou falar assim mesmo: eu adoro ler.
Como leitor, tenho me deparado, ano após ano, com inúmeros lançamentos que, não sendo
ruins, são desprezíveis. Este livro não é, exatamente, sobre livros ruins, e sim sobre
livros desprezíveis, sem razão de existirem nos dias de hoje. Livros marcados por
fórmulas gastas, com recursos ultrapassados de narrativa ou com pretensões acima da
estratosfera. Em suma (eu odeio em suma): livros escritos por gente que se aventura na
literatura por motivos para lá de equivocados.
Este, portanto, é um livro que, não sendo equivocado ele próprio, é sobre gente
equivocada que escreve livros equivocados."
(no Preâmbulo)