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O ano da Lagartixa
José Roberto Fidalgo
Romance

Ano 2008
Edição do autor (1ª)/ 158 p.
Formato 14,8 x 21 cm
encadernação lombada quadrada
ISBN não tem

preço: R$ 20,00
(mais frete nacional por Carta Registrada R$ 4,90)

Total: R$ 24,90

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entrevista com o autor

Minha conversa com a Lagartixa
Marcos Augusto da Silva Ferreira, jornalista, 07mai08

— Olá!
— Você por aqui?
— Surpreso?
— Não podia ser diferente, não acha?
— E então?
— Então o quê?
— O livro.
— Acabei de ler.
— Sei disso. E aí?
— Aí o quê, porra?
— Não apela. Calma lá. Vai dizer que você perdeu algumas horas do seu início de madrugada, sentado nessa privada desconfortável, e só vai-me dizer que acabou de ler?
— E você, vai me dizer que passou as mesmas horas de inícios de madrugadas me vigiando, aí de cima?
— Não disfarça. Também não foi fácil para mim. Foi bastante desconfortável, pois seu banheiro está precisando de uma boa reforma e os cupins estão adorando essa velharia toda. Além disso, você há de concordar comigo: vê-lo sentado em uma privada, pelado, está longe de estar entre os zilhões de coisas prazerosas. Mas vamos, desembucha. O que achou?
— Achei sua participação fantástica, repleta de ironia e sarcasmo.
— E...
— Confesso que senti um pouco sua ausência na segunda parte da história (ou da quase história... ou sei lá... do livro).
— Mas eu estava lá. Além do mais, a história é do cara, e ele tinha prioridade, tinha que aparecer mais. Do contrário, poderia me eliminar de vez.
— Conheço o cara, não faria isso. Além do mais, ele não estava escrevendo ‘Em busca da Lagartixa Perdida’.
— Que trocadilho babaca, uma pseudo-citação pseudo-intelectual. Você está me enrolando. Continua.
— Porra, não sou crítico literário. Gostei do livro, mas há passagens que achei um pouco chatas.
— Como assim?
— Ora, assim sendo.
— Exemplifique.
— Que aporrinhação.
— Não seja imbecil, sei que você está louco para ver o cara e dizer que acabou de ler o livro e dizer o que achou, suas considerações e elogios. Então, desembucha.
— Confesso que achei o início do caralho. A coisa das ‘obras’ queimadas etc. e tal. , que depois foram muito bem aproveitadas no final do livro. Aquela coisa do cara achar que vai se alistar e acabar com um emprego de carteiro. Lembrou um pouco Cartas na Rua, do Bukovski. Aí, depois...
— Aí o quê?
— Deixa eu falar, caralho.
— Já vi que você também é daqueles que usa os palavrões como se fosse pontuação gramatical. O supra-sumo da manifestação cerebral do ser racional: a ignorância. Prossiga.
— Depois, achei que íamos entrar naquela coisa do escritor em crise, escrevendo sobre o comportamento de um escritor em crise, atrás de uma obra-prima... Sabe aquela coisa de artista, intelectual: a obra dentro da obra, as agonias da criação etc. e tal.
— Creio que você teve neurônio suficiente para perceber logo que não era nada disso, não é?
— Tive uma agradável surpresa, pois temia que viesse aquela divagação de escritor ‘beat’, sabe? Aquela coisa de ficar chapadão e conversar com o copo de cerveja, pendurado num balcão imundo de um boteco imundo... e ainda justificar que tudo é uma verdadeira manifestação da alma.
— Pode ser isso, já que o cara conversa com uma lagartixa.
— Uma não, você. E aí é que está o surpreendente do livro. Sua participação é fundamental para que o cara, o escritor, não transforme o livro em um muro de lamentações e angústias.
— Taí, gostei disso.
— Por esse motivo, senti sua falta na segunda parte.
— O que incomodou você?
— Não foi incômodo, pois incômodo é sempre bom numa obra.
— Agora está falando como crítico.
— Deixa eu falar. Não me convenci daquela história de quartinho de hotel no centro da cidade, o tal do Ronaldo, aquele troço de Poeira Invisível, A Coisa... Se bem que gostei do Esconderijo.
— O cara estava se exercitando, meu chapa. Queria tomar coragem para escrever um livro.
— Eu sei. E gostei muito da estrutura do livro: uma história dentro da história.
— Então, é isso mesmo.
— Veja bem, não tenho a menor certeza sobre isso e também não quero saber. Só sei é que gostei quando você reapareceu e botou o cara, a coisa, a porra do Ronaldo, a puta que o pariu... todos eles você fez acabarem com a ladainha.
— Demorei para encontrar o cara naquele hotel desclassificado.
— Eu sei. Até rezei para chegar logo a hora do reencontro. Já estava a ponto de estourar os miolos do cara ou mandá-lo comprar uma plantinha e esquecer o livro.
— Ainda bem que você resistiu.
— Não foi difícil, gostei e vou falar para o cara. Li (e ri também) e gostei.
— Gostou mesmo?
— Sim, o suficiente para estar em postura imbecil, em situação horrenda, contando tudo para uma lagartixa. Ou seja, gostei de forma tão absurda que cá estou, sentado em uma desconfortável privada, posando de crítico literário para inflar o ego de uma lagartixa e de um cara que conversa com lagartixa.
— Não seja imbecil. Não tenho ego. O cara é que vai ganhar todas as glórias, o louros da vitória.
— Às lagartixas, as batatas.
— Mais uma citação babaca.
— Mas é você que está na capa e domina as imagens do livro.
— Taí, gostei disso, também. Você é uma espécie de crítico ou escritor frustrado e agonizante?
— Êpa, peralá. Não venha querer ganhar espaço em história alheia. Vá infernizar seu criador, ó criatura.
— Então, da próxima vez, procure um lugar mais agradável para entrar na história alheia.
— Vá embora, isso aqui é insano. Já perdi muitas horas do meu início de madrugada e daqui a pouco tenho que estar pronto para o trabalho. Direi pessoalmente ao autor que gostei do livro.
— Como quiser. Mas espere eu sumir atrás do armário para depois você se levantar e dar a descarga. Me poupe desta cena hedionda e surreal. Oh, não. Não ouse levantar-se. Adeus...
A crônica de um autor pelado
Mauri Alexandrino, 01/04/2008

Em seu primeiro romance, O Ano da Lagartixa, o jornalista santista José Roberto Fidalgo, ou JR Fidalgo como está na capa do livro, é um autor pelado. Não porque a história tenha a ver com nudismo, o que não tem. Também não é porque, num sentido figurativo, ele teria desnudado sua vida frente aos leitores, num desses stripteases autobiográficos que andam em voga. A história usa episódios e recursos que só brotam da vivência e da convivência evidentemente, mas está longe dos livros de auto-ajuda, outra praga recente das prateleiras. JR Fidalgo está pelado no que mais interessa: o ato de escrever, a motivação de escrever, as dúvidas e a insatisfação permanente à espera de palavras, linhas e sentenças. A luta nua do autor com sua obra.

Impossível deixar de ler em O Ano da Lagartixa os ecos de John Fante, escritor norte-americano falecido em 1983, em especial o Fante de Pergunte ao Pó, embora no oposto simétrico das situações. Arturo Bandini, o personagem do livro de Fante, julga-se um grande escritor injustiçado — mas não é. Está sempre à espera pela primavera, o que é literal no conto Espere a Primavera, Bandini, que lhe deu nascimento. O personagem inominado de O Ano da Lagartixa percorre o caminho narrativo oposto, sempre duvidando da qualidade, jamais repleto, que joga textos fora, que reescreve, que pára, vazio, defronte à tela vazia de um velho computador num quarto de uma casa de cômodos. Espera apenas palavras, não primaveras, que de resto seriam inúteis sob a insanidade do vento noroeste.

Como o personagem de Fante, o personagem de JR Fidalgo está sempre Walk on The Wild Side, frase, por sinal, que sempre se atribui ao músico e performer Lou Reed, mas é o título de um roteiro de filme de John Fante, que foi (re)utilizado pelo compositor, seu fã declarado. Mas o escritor lutando com o texto em O Ano da Lagartixa está mais próximo das agruras dos personagens de Charles Bukowski, autor magnífico que também é uma criatura de John Fante ou, como preferia, um “seu irmão literário”. Jonh Fante, Charles Bukowski, Lou Reed — em boa companhia está esse JR Fidalgo.

Em comum, mais que o atacado de temas e situações, há o varejo do texto vertiginoso e cambaleante, bêbado de uma energia descontrolada e efêmera, de emoções substantivas que explodem e consomem-se em segundos. A graça às vezes amarga, mas nem por isso menos cômica. Se Bandini parece mover-se em meio a uma trilha sonora de jazz, o inominado personagem de JR Fidalgo nada em rock’n roll puro. As menções sobre uma época inteira estarão aqui e ali, espalhadas no ar quente e pegajoso.

Bandini, o personagem, é o alter-ego de Fante. Fidalgo desloca seu personagem para o lado, para dar lugar ao alter-ego do autor, que é a lagartixa que batiza o livro. Ou antes, ambos são, como num caso de dupla personalidade, evadindo-se de fatos passados, de uma vida anterior, de uma outra encarnação quase.

Bichos falantes são tão velhos quanto a literatura. A lagartixa é mais esperta que um grilo, uma raposa ou um cachorrinho que ri. É mais prática que um porco pretendendo andar em duas pernas. Lagartixa é bicho liso, frio, rápido e rasteiro. Lagartixa é dos raros seres que expõem uma nudez despudorada vida afora. Tem, ainda, a vantagem suprema de viver em uma realidade verdadeiramente tridimensional, na qual não há paredes nem teto, só chão.